8.7.15

Mudanças.


Há algum tempo que não escrevo. A verdade é que tem acontecido demais e apesar de ter feito os textos não cheguei a publicá-los. No fundo, tenho medo que leias o que aqui escrevo, embora me pareça ridículo pensar que o possas fazer. Porque é que tinha medo? Sinceramente, não queria que soubesses que ainda sentia alguma coisa e agora só não quero que saibas que quase não sinto nada. E é tão estranho dizê-lo porque ainda há pouco tempo eras tudo. Parece incorrecto mas a verdade é que esse momento para ti foi há mais de meio ano atrás. Bem, vou então deixar os textos.

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«Estou à tua porta.»

Esperei no escuro da noite, enquanto ouvia os sussurros provenientes do interior da tua casa. A tua família. O teu pai a ralhar ao teu irmão. Todos aqueles sons que outrora pertenceram também à minha vida. Olhei em redor, a absorver tudo aquilo que não via há meses, a procurar diferenças, a relembrar o passado. Ouvi-te descer as escadas, a acender as luzes. Um som tão reconfortante no passado, mas que me deixou tão nervosa agora. Finalmente, abriste-me a porta. Tentei parecer normal, descontraída, indiferente a ti, mesmo quando o meu interior se revolvia. O meu coração saltava descontroladamente, reclamando por ti. Os meus nervos remexiam o conteúdo da minha barriga, numa mistura de borboletas explosivas e de náuseas. No entanto, sei que não importa o que sinto. Sei que devo fingir não o sentir, pois provavelmente é melhor para ti se assim for. Pelo menos, um de nós segue em frente. Pensei que fosse mais fácil mas, estando ali de olhos postos em ti, só queria poder tocar-te, relembrar os teus contornos, reaprender tudo o que estivesse esquecido. Naquele momento, só queria que o tempo voltasse atrás. Cumprimentaste-me com um beijo na cara e senti imediatamente o cheiro do teu perfume, atiçando ainda mais a tempestade que havia dentro de mim, catapultando-me para o nosso passado. Terás posto porque eu aí ia? Improvável. Por dentro, tremia como varas verdes. Conversámos um pouco, presumo que mais por minha vontade do que por tua. A minha garganta estava seca, a minha saliva colava-se à boca, senti que tudo o que disse era deslocado e estúpido e tão distante dos meus sentimentos. Por um lado, estar ao pé de ti foi tudo aquilo que pensei que ia ser mas, por outro, não foi nada do que estava à espera. Foi constrangedor, como sabia que ia ser. Estranho, como seria de esperar. Mas sei lá, desejei que pudesse ser um reencontro, um despertar das tuas emoções. Fui lá apenas e unicamente pelo livro mas mesmo assim tive esperança. Houve um silêncio. Esperei que falasses mas possivelmente também não sabias o que mais dizer ou então só querias que fosse embora. Pedi-te um copo de água. Não que o quisesse mesmo, mas sim porque precisava de mais tempo ali, precisava de prolongar os segundos que passava na tua companhia. Houve um novo silêncio enquanto bebia a água, portanto passei a bebê-la só para ter que fazer. Pensei imenso no que deveria fazer ao copo, se pousá-lo seria melhor do que to devolver, mas acabei por fazê-lo. Aproximei-me de ti, estendi-te o copo. Acho que me olhaste nos olhos durante um tempo. Mas aí está, «acho». E mesmo que tenhas olhado? Depois, a tua mão avançou lentamente para o copo, pousou em cima da minha e demorou-se um pouco antes de levar o copo consigo. Mas, novamente, só «acho» que isto aconteceu. E porquê? Porque era o que eu queria que acontecesse, o que a minha esperança desejava e, portanto, é possível que ambas as coisas tenham sido fruto da minha imaginação. É possível que na realidade não tenhas feito nada disso. Possível que só me quisesses dali para fora.

«É melhor ir embora». Novo silêncio. Sabia que devia começar a andar mas sentia-me incapaz de o fazer, sentia medo de me afastar de ti, das memórias, do passado, sentia-me presa. Dei um passo, parei, comecei a rir-me. Sinceramente, nem sei do quê ao certo, talvez de mim mesma, talvez do que ainda sinto, da minha hesitação em ir, do ridículo da situação, do teu amor perdido. Comecei a andar, «vá, vou embora». E, depois de estar quase longe da tua linha de visão, fiz o que nunca se deve fazer, olhar para trás. Mas tu também estavas a olhar. Aliás, «acho».

Agora, estou a ignorar todos os sinais, basicamente, tudo o que achei serem sinais. Lutei para não mandar mensagem, mesmo que todos os membros do meu corpo me pedissem o contrário. E porquê? Porque se fosse mais do que a minha imaginação, então eu estava à distância de uma mensagem tua. E tu não mandaste…



Não sei como explicar a festa da Maceira, só posso dizer que foi nesse dia que tudo mudou. Primeiro, se não ficou claro no próprio dia, não fui por tua causa. Não sabia que ias lá estar até ter entrado na festa. Mas ainda bem que assim foi, se não neste momento ainda seria loucamente apaixonada por ti.
A primeira impressão que me ocorreu nessa noite foi já não te achar tão belo. De qualquer das maneiras, não estava à espera que estivesses lá, não queria que estivesses lá. Estava nervosa com a tua presença.
Cheguei com os teus amigos e juntámo-nos ao teu grupo, cumprimentaste-me e a partir daí surpreendi-me com a facilidade com que conseguias ignorar-me. Era como se estivéssemos divididos em dois grupos, aqueles que falavam contigo e aqueles que falavam comigo. Não tentei falar contigo, não pretendia fazê-lo.
Comecei a beber. Sabes que não é preciso muito para me deixar bêbada, portanto rapidamente comecei a falar pelos cotovelos, tanto pela bebedeira como pelo nervosismo causado por estar junto a ti. Perdi a vergonha e comecei a falar com os teus amigos, entrei na tua parte do teu grupo, até que também tiveste de te juntar a nós. Mesmo assim, estando os dois com as mesmas pessoas era como se uma barreira se atravessasse entre nós. Podíamos responder a tudo o que os outros diziam mas nunca dirigíamos a palavra um ao outro, se um de nós falasse o outro não ouvia. Foi por isso que me senti impressionada quando me perguntaste se queria beber alguma coisa.
A noite continuou connosco a fingir que não estávamos na mesma festa e comigo a ficar cada vez mais bêbada. Quanto mais bêbada, menos me importava contigo. Chegaram amigos teus.
- Então, vais apresentar-nos as tuas amigas? – perguntou um deles.
Claro que o ignoraste, nem eu esperava outra coisa. Ele voltou a perguntar, mas desta vez ao mica. Fomos apresentados e engracei imenso com ele. Disse chamar-se Tó, que andava em medicina e disse que se lhe desse o pulso que me media a pulsação. A certa altura a minha irmã desapareceu. Fui ter contigo para perguntar por ela e, acredita, era só mesmo essa a minha intenção mas, no entanto, ficámos os dois sozinhos. Estava numa luta interior entre falar contigo ou correr na direcção oposta.
- Então, quando é que vais parar de agir assim? – perguntei.
- Assim como? Estou normal.
- Não, estás a ignorar-me desde que cheguei. Não precisas de me tratar assim.
- Trato-te bem, até te emprestei o livro a semana passada.
- Não me emprestaste, o livro é meu e para além disso doutra maneira não estudava para o exame.
Começámos a conversar cada vez mais até ser um pouco menos estranho. Contaste-me o que tem acontecido na tua vida, entornei a tua bebida para cima de ti, queixei-me da minha mãe, não sei, sentia-me bem ao estar assim contigo. Foste importante, não existe necessidade em tratar-te como um estranho. Entretanto a minha irmã e o nosso amigo chegaram e fomos todos à casa de banho. E foi nesse momento que tudo mudou. Saí da casa de banho e o Mica veio ter comigo.
- Quando estávamos lá dentro ele disse-me que estavas a falar muito com ele e que não vale a pena estares com esperanças porque ele não está para aí virado. – Deu-me mesmo vontade de rir naquele momento. Não podia mesmo acreditar que tinhas dito aquilo. Não estava a tentar nada contigo, estava só bêbada.
Decidida a ignorar-te pelo resto da noite, voltei para a festa. Começou a passar quizomba. Lembro-me de namorar contigo e não conseguir dar um único passo de dança. Lembro-me de querer dançar contigo e nenhum de nós ser capaz. Puxei a minha irmã para a “pista de dança” e rapidamente estava a dançar com os teus amigos e com qualquer pessoa que me convidasse. Sei que levaste a mal ter dançado com desconhecidos mas qual é o mal? Era uma dança e não é como se fosse comprometida. Ainda por cima podre de bêbada. Estávamos todos a dançar e tu a um canto.
- Queres dançar? – perguntei-te.
- Não, obrigada. – acho que me senti aliviada por não teres aceite. Não saberia o que iria sentir ao dançar contigo mas não senti qualquer rejeição pela tua resposta. Não me importei, continuei a dançar.
O Tó começou a sorrir para mim e segurou-me na mão.
- Para além de medires pulsações também danças, uau. – gozei.
- Sou campeão do quizomba.
Podes pensar que ele me estava a enganar mas não estava. O Mica avisou-me logo que ele se metia com todas as raparigas, disse-me logo que nem em medicina andava. Sabia no que me estava a meter.
Dançámos, passei imenso tempo com ele. Sinceramente, nem dei por ti a ir embora. De madrugada ele já tinha o meu número de telemóvel e andávamos pela festa de mão dada. Não que significasse alguma coisa para algum de nós, só que nesse momento a bebida era demais para nos importarmos.

A partir daí comecei a falar com o Tó todos os dias por mensagens e à noite íamos sair. Foi no São 
Pedro que ele me beijou pela primeira vez. As coisas até pareciam estar a andar bem.


Sábado, São Pedro
Fui com a minha mãe e após algumas horas decidi cometer a loucura de ficar lá sem qualquer maneira de voltar para casa. Fiquei com o Mica e fomos ter com o resto dos teus amigos. Estávamos todos bêbados nas tascas, a falar e a picar-nos uns aos outros.
- Está ali o Tó – olhei para o sítio para onde o Mica estava a apontar. Numa mesa comprida estava o Tó sentado com imensas raparigas, de braço à volta de uma delas. Corroí-me um pouco por dentro mas ignorei.
Continuámos todos a conversar normalmente até que um dos rapazes com quem estava tirou o telemóvel para receber uma mensagem. Olhei e vi que era do Tó. «Foge com essa». Apesar de ter sido avisada por toda a gente quanto a ele, não quis acreditar que fosse verdade. Ele não parecia assim. Estava comigo e com os amigos, tratava-me bem. Afinal, enganei-me redondamente. Mas não penses que fiquei magoada porque não fiquei. Talvez tenha mexido um pouco com o meu orgulho, enfureceu-me, mas não me doeu. Tinha sido avisada e, para além disso, as coisas pareciam estar a ficar sérias e eu não estava feliz com esse rumo. Não queria ficar presa a alguém, não sabia se sentia alguma coisa por ele, não tinha a certeza se gostava quando me beijava, ficava confusa quando alguém mais bonito se metia comigo. Ele era fruto das minhas bebedeiras, de noites de festa.
Vi o Tó ir embora com a rapariga e vi-o a voltar para a festa apenas às 7 da manhã. Fingiu não me ver, como tu fazes quando estou por perto. Só foi ter comigo quando a minha irmã mais velha chegou à festa.
- Olha a Ana! – fingiu estar muito contente por me ver. Virei-lhe as costas.
- Esqueci-me do telemóvel em casa, por isso é que não te respondi. – acrescentou.
Ri-me. No nosso primeiro encontro na Maceira quase tudo o que me disse sobre ele era mentira, tem piada a facilidade com que mente.
- Pois, o teu telemóvel mandou uma mensagem sozinha aqui ao nosso amigo.
- Mas qual mensagem? – ainda teve a lata de se fazer desentendido.
- Aquela a dizer «foge com essa».
Claro que desmentiu. Desmentiu também ter ido embora com a rapariga, «mas qual rapariga? Diz-me onde é que me viste com outra rapariga?». Ainda perguntou se eu ia mesmo ser assim com ele. Disse que no dia seguinte me ia arrepender de estar a ser má para ele. Mas não me arrependo. Não me doeu nada, não me dói, só me custa não ter ninguém com quem falar. Ele era como o preenchimento de um vazio, apenas isso. E ainda bem que acabou porque estaria a enganar-me caso pensasse sentir alguma coisa por ele. No entanto, fico feliz por ter acontecido, «nada como ter alguém para esquecer outro alguém».
Sei que parece mal dizê-lo mas não te cabe a ti julgar-me, fizeste exactamente o mesmo.

~ 9 ♥: ~

Sarafaela says:
at: 08/07/15, 18:36 disse...

bem durante este tempo estives-te ocupada :p
Acho que fizes-te bem em divertir-te

carinafmp says:
at: 09/07/15, 13:52 disse...

então querida?
depois de ler tudo isto fiquei "chocada" com tanta ignorância e indiferença... diariamente costumo pensar como é que as pessoas são capazes de mentir à descarada

Renata says:
at: 17/07/15, 09:56 disse...

Tens de ter muita força e seguir em frente... Beijinhos

Carina Sofia says:
at: 17/07/15, 11:34 disse...

r: oh isso é excelente. fico contente por saber que, finalmente, estas bem! :)
parece que andas muito ocupada depois de ler estes texto. :) mas ninguém te pode julgar por as decisões ou atitudes que tenhas porque a vida é tua e só tu sabes o que fazer com ela. Todo serve para retirar uma lição e aprender.

Sara Martins says:
at: 24/07/15, 17:55 disse...

com o tempo vais descobrir o que te fascina (:

Marta'Santos says:
at: 26/07/15, 15:45 disse...

Isso é verdade, mas o caminho é para a frente é só temos que nos focar nisso

carinafmp says:
at: 27/07/15, 20:41 disse...

homens? não. isso não são homens, por isso não podes julgar todos porque essa "coisa" te fez mal, caso contrário vais sempre ter dificuldades

Sarafaela says:
at: 27/07/15, 21:45 disse...

podes crer querida, acho que é mesmo o melhor que fazemos... eu já o ando a fazer e tem realmente ajudado, espero que as coisas contigo também já estejam melhores :)

Ísis says:
at: 01/02/16, 02:05 disse...

«nada como ter alguém para esquecer outro alguém» Não acho que pareça mal, no fundo acontece quase sempre.

Vais conseguir seguir em frente, sei que sim.

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