Sinceramente,
já não me lembrava como era a sensação, como era saber que vamos perder a
pessoa que amamos. Já não me lembrava como era ficar no nosso canto numa espera
dolorosa que o fim chegue. Como era implorar por alguém. E lembrar-me da
sensação faz-me lembrar do porquê de sempre prometer a mim mesma que não me
volto a apaixonar. Eu só não consigo passar por isto. Não outra vez. Não tão
cedo. Não sem dar tudo de mim. E o problema é saber que a culpa é minha. Saber
que todas as minhas lágrimas foram causadas por mim. Saber que nada do que diga
ou faça vai mudar as atitudes que já tive. Saber que talvez nada do que diga ou
faça mude a tua opinião sobre nós. E o mais assustador é não saber por que
espero. Não saber se vamos fazer as pazes ou se vais simplesmente desistir. E
bolas, estou com tanto medo. És a última pessoa que quero perder mas talvez eu
mereça. Dei importância às coisas erradas. Dei mais importância às vezes que
não vinhas ter comigo do que àquelas que vinhas. Dei mais importância ao que
diziam de ti do que àquilo que me mostravas. Dei mais importância às vezes que
me tratavas mal do que às vezes que me tratavas bem. Deixei a minha cabeça
criar coisas que não eram verdade. Enfim, vejo que não te dei o devido valor e
não podia estar mais arrependida. Mas talvez já não haja nada a fazer. E eu
tenho de aceitar porque a culpa é minha. Não há nada que possa dizer para me
defender. Não há nada que possa fazer para não te perder porque o que havia
para fazer já o devia ter feito. E agora resta-me o quê? Chorar? Chorar até
ficar com os olhos inchados e com a cabeça pesada. Chorar porque vou perder
alguém que procurei durante tanto tempo. Chorar porque não vou voltar a acordar
junto a ti. Porque não vou voltar a entrelaçar as minhas mãos nas tuas. Porque
vou ter saudades e não vou ter como as matar. Chorar porque a culpa é minha.
Porque não vamos fazer mais maratonas de séries. Porque não me vais voltar a
chamar nomes de comida. Porque estraguei isto de tal maneira. Porque te amo.
Porque sei quanto tempo vou continuar a amar. Porque não vou voltar a fazer
tostas para ti a meio da noite. Não vou voltar a bater o café durante séculos
para ter a certeza que fica perfeito para ti. Porque provavelmente vais
desaparecer da minha vida. Porque eu realmente mereço. Pedi demasiado de ti e,
por isso, vou acabar sem nada.
Os dias passaram, com eles semanas, e depois meses. Já tudo parecia distante, difícil de voltar a alcançar, mas mesmo assim ela recusava-se a desistir. Se desistisse poderia nunca voltar a tê-lo, poderia nunca voltar a ouvir a sua voz e a ver o seu sorriso. Quando passava por ele na rua, ele fingia não a ver, era como se fosse invisível, um pedaço de nada. A pequena sorriu-lhe, ele olhou para ela com indiferença e seguiu o seu caminho. Magoada, procurou todas as suas forças para se manter de pé, com a cabeça erguida e um sorriso na cara, enquanto acenava à sua melhor amiga que lhe contava alguma coisa que esta fingia estar a ouvir. Mas era de noite que a menina se afundava na sua cama, tapava a cara com a almofada e chorava. Chorava até se sentir melhor, até se libertar daquela dor. Depois disso, levantava-se e dirigia-se até ao armário do seu quarto. Na última gaveta, bem lá no fundo, submerso por montes de roupa, encontrava-se um caderno. Um caderno que abarrotava de folhas q...

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